Extraído de TCINet, outubro de 2000
Desafios da Telemedicina no BrasilPor Marcelo Zuffo*
Hoje, a telemedicina é uma realidade em muitos países do mundo e apresenta em sua forma mais básica o uso da infraestrutura convencional de telefonia. Um exemplo são os serviços 0800 para esclarecimento de dúvidas sobre remédios genéricos. Outros recursos de telecomunicações mais avançados podem ser utilizados como paging, telefonia móvel, TV a cabo, TV convencional, Internet e, mais recentemente, a Internet 2
A telemedicina é um termo amplo que abrange a prática médica à distância por meio eletrônico. As primeiras referências históricas referem-se ao uso do telégrafo durante a batalha de trincheiras na primeira grande guerra mundial, para a retirada de feridos do campo de batalha.
Hoje, a telemedicina é uma realidade em muitos países do mundo e apresenta em sua forma mais básica o uso da infraestrutura convencional de telefonia. Um exemplo são os serviços 0800 para esclarecimento de dúvidas sobre remédios genéricos. Outros recursos de telecomunicações mais avançados podem ser utilizados como paging, telefonia móvel, TV a cabo, TV convencional, Internet e, mais recentemente, a Internet 2.
Obviamente que com as tecnologias modernas a telemedicina pode se manifestar de várias formas no ambiente da saúde, influenciando não apenas os médicos, mas os pacientes, familiares e todo o complexo de serviços de saúde.
Seu uso envolve o ensino acerca de doenças e o respectivo tratamento, a segunda opinião médica (no caso de doenças complexas cujo diagnóstico e tratamento dependem da opinião de vários especialistas) e a construção de bancos de dados de referência epidemiológica (neste caso poderiámos, por exemplo, determinar com maior exatidão a influência de fatores como poluição, políticas públicas e ações sanitárias sobre a incidência de doenças sobre a população).
As aplicações mais sofisticadas da telemedicina incluem atualmente o desenvolvimento de simuladores de realidade virtual para práticas cirúrgicas e o uso de telerobótica para a realização de cirurgias à distância.
Com tanta tecnologia, o maior desafio da telemedicina moderna é o que denominamos de human-ware, o comportamento dos seres humanos frente à tecnologia. Para que um projeto de telemedicina dê certo, é preciso identificar a demanda do serviço de saúde e os respectivos provedores, o que não é tarefa simples, pois é preciso considerar fatores culturais, sociais e econômicos.
Desde maio deste ano, praticamente 80 anos depois das explorações do Marechal Rondom sobre a Amazônia, foi instalado um projeto piloto de telemedicina entre o Instituto da Criança do HC-USP e o Hospital de Base Ari Pinheiro, em Porto Velho Rondônia (www.lsi.usp.br/rondon). Neste projeto são oferecidos cursos, seminários e segunda opinião médica a pacientes, que até então só tinham a alternativa de migrar para a cidade de São Paulo (48 horas de viagem de ônibus) para usufruir destes serviços.
Um outro projeto, que está sendo desenvolvido pelo Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, já oferece serviços de segunda opinião médica por especialistas localizados em grandes centros médicos norte-americanos.
No Brasil, o potencial do desenvolvimento da telemedicina é enorme, bastando lembrar das incríveis disparidades regionais encontradas no país. Dados do Ministério da Saúde apontam que em cidades como São Paulo, gasta-se por ano a ordem de R$ 280/ano/habitante; em cidades da região norte do país este gasto é inferior à R$ 3/ano/habitante. Ou seja a proporção de acesso à saúde nestas regiões é 100 vezes menos do que nas grandes concentrações urbanas brasileiras. Por outro lado, o país possui uma razoável infraestrutura de telecomunicações, com cobertura por satélite abrangendo todo o território nacional.
A situação no Brasil é, portanto, única em termos mundiais. Somos um país em desenvolvimento, com contrastes e desafios. Cabe a nós identificar oportunidades e estabelecer um modelo de telemedicina adequado à nossa realidade.
*Marcelo Zuffo é Professor da Escola Politécnica da USP e coordenador do Grupo de Computação Visual e Mídias Interativas do Laboratório de Sistemas Integráveis.