Ciência e Tecnologia desalinhadas com a sociedade

Paulo R. Foina[1]

Com a necessidade premente de cortar custos, algumas secretarias de Ciência e Tecnologia foram fundidas com outras perdendo assim sua relevância política e institucional. No DF ela foi guinada a uma Coordenação respondendo diretamente ao Governador. Mas o que significam essas mudanças?

Vamos começar pelos cortes e fusões. Se uma atividade não é prioritária em momento de crise é porque ela nunca o foi, e os recursos nela investidos só o foram para evitar conflito com seus interlocutores. O dinheiro público é para ser gasto onde ele é necessário para a população e não para aplacar pressões ou conseguir apoio politico. Todos os políticos declaram, publicamente, a importância da C&T para o desenvolvimento do país, e até para a soberania nacional, mas ao primeiro sinal de queda de receita, é uma das primeiras áreas a ser cortada. Justamente quando mais se precisa de desenvolvimento e geração de receita. Mas o porquê dessa incongruência?

Governantes são entes políticos que reagem à pressão social, e a nossa C&T está longe de ser percebida pela sociedade como algo relevante para o seu dia-a-dia. Nos países onde o dinheiro público é respeitado, todas as atividades, que usam esse recurso, prestam contas dos seus resultados para os cidadãos que as mantêm. Não fazemos isso! Consideramos os investimentos em C&T como obrigação do governo e para o qual não devemos dar satisfações ou prestar contas. O resultado é essa completa apatia da sociedade para com os cortes nos recursos de C&T. Não somos importantes para a sociedade! Simples assim.

Mas sabemos que sem a C&T o país não desenvolve novas tecnologias, não gera novas empresas, não abre novos empregos e não expande as exportações. Sim, sabemos, mas não transmitimos isso para a sociedade. Pior ainda, não fazemos uma C&T que seja de interessa da sociedade brasileira. Tai a razão desse descolamento entre nossos interesses e os interesses da sociedade, materializados nos cortes de orçamento e redução de importância política da C&T.

Como protagonistas de C&T esquecemo-nos de prestar contas, à sociedade, dos recursos que gastamos. Quantas empresas criamos com eles? Quantos empregos geramos? Quanto aumentamos as exportações? Que melhorias trouxemos para a saúde da população? O quanto melhoramos a educação dos jovens brasileiros? Como ajudamos a reduzir os transtornos com o trânsito das cidades? Como contribuímos para trazer mais segurança para o dia-a-dia da população? Quanto reduzimos os desperdícios de alimento e os custos da refeição? Quais as melhorias que trouxemos para as telecomunicações? As respostas são dolorosas: tirando alguns grupos de pesquisas comprometidos com a nossa sociedade, não geramos nada para quem paga nossos salários. Simples assim.

A culpa desse descolamento entre a academia a e sociedade deve ser distribuída igualmente entre governos e pesquisadores. Os gestores de C&T, em todos os níveis, são escolhidos entre os próprios pesquisadores, usualmente aquele que tem maior projeção. Contudo não somos treinados para sermos gestores e sim pesquisadores. Sem as competências e habilidades de gestão moderna não podemos esperar resultados eficientes ou alinhados com estratégias de governo (quando existem) ou com reais demandas da sociedade. Administramos a C&T da mesma forma que gerimos nossos grupos de pesquisas ou prestamos contas para os programas de fomento que usamos.

Publicar artigos em revistas, formar doutores e mestres, participar de congressos são importantes, mas não para quem está desempregado, ou padecendo num hospital, ou passando fome, ou sofrendo com as greves dos professores, ou gastando 4 horas por dia em ônibus velhos e metrôs sufocantes.

Se quisermos ser reconhecidos pela sociedade precisamos ser importantes para ela. Este é o maior desafio da C&T brasileira: mostrar para que serve. Até lá, vamos bradar palavras de ordem e frases feitas que só fazem eco nas nossas próprias cabeças.

 

 

[1] Paulo Rogério Foina, Físico com doutorado em Informática. Coordenador dos cursos de Ciência da Computação e de Jogos Digitais do UniCEUB, consultor do Instituto de Pesquisa Eldorado e Diretor do Instituto Illuminante.

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