Foco na educação

Paulo Rogério Foina[1]

A educação voltou à cena popular por causa da MP 756/2016 que modifica o Ensino Médio. A discussão sobre as melhorias possíveis na educação brasileira já tem mais de vinte anos. Muitos debates, congressos, estudos e pouco resultado. A MP em questão tem o mérito de começar a fazer alguma coisa de concreto para tentar mudar o quadro de insucesso das políticas e práticas educacionais adotadas até agora. Pode não ser o melhor caminho, mas é um caminho real e não teses ou ideias. E olhe que ela está no caminho certo. Infelizmente o debate sobre a educação quase sempre se foca nos componentes dessa ciência e não no que realmente interessa. Salários, infraestrutura, merenda, processos de avaliação e conteúdos são componentes, O que interessa é o resultado final, ou seja, a formação de jovens capazes de entender o mundo onde vivem, e saberem aproveitar as oportunidades que a sociedade moderna lhes oferece.

Pensar a educação é pensar sobre o futuro. Uma criança que entra na escola este ano estará apta a exercer sua cidadania de forma produtiva só daqui a 10 anos, se optar por uma profissão técnica ou 15 anos, depois de cursar uma faculdade. Não adianta elaborarmos políticas e técnicas para a sociedade de hoje. Ela vai mudar, e muito, em 10 ou 15 anos. É preciso imaginar como será a sociedade do futuro para elaborar as políticas de hoje. As mudanças estão ocorrente muito rapidamente e gerando mudanças importantes no dia-a-dia das pessoas e das empresas. Basta lembrarmos que há oito anos não existia smartphone, há quinze anos não existia o Google e há sete anos não existia o WhatsApp. O Estado Islâmico aparece com força nos últimos cinco anos e a Coreia do Norte passou a assustar o mundo também nos últimos cinco anos. São muitas mudanças em pouco tempo e elas devem continuar a surgir num ritmo ainda maior.

Qual será a sociedade do futuro próximo? Será cada vez mais automatizada, não só com a robotização dos processos manuais, mas principalmente nos processos decisórios e mentais menos elaborados. Teremos robots cirurgiões, agricultores, mecânicos e até gerentes. Os novos carros serão elétricos e sem a necessidade de motoristas. A geração de energia alternativa será mais intensa e mais próxima do consumidor final reduzindo a exigência de grandes barragens, linhas de transmissão e distribuição. A comunicação será mais rápida e com cobertura em todo o território.

Boa parte dos trabalhadores serão autônomos e donos de pequenas empresas, dependendo cada vez menos da tutoria do governo. Aliás os governos serão menos importantes na economia reduzindo suas atuações às atividades que lhes são exclusivas, como o controle da moeda, a regulação do mercado e a elaboração de leis e normas.

Nesse cenário as pessoas precisam ter algumas habilidades, que são pouco exploradas no nosso sistema educacional, e isso precisa mudar. Conhecimento enciclopédico (memorização de datas, fatos, fórmulas, tabuadas, tabela periódica etc. ) não será mais necessário pois as informações estarão sempre à mão de todos, o tempo todo. No lugar de decorar a tabuada, vamos entender que a multiplicação é uma sucessão de somas. A tabela periódica dos elementos precisa ser entendida como uma organização lógica de características dos elementos e não algo para ser memorizado. As fórmulas matemáticas precisam ser entendidas para saber onde usá-las e onde encontra-las. A História não deve ser mais uma sucessão de fatos, mas sim um inter-relacionamento de forças e motivos que construíram nossa sociedade. A biologia não é um conjunto de taxionomias e nomes latinos mas o estudo das relações bioquímicas que acontecem nos seres vivos. Acidentes geográficos só são interessantes quando analisados frente às forças da natureza que os criaram e quanto aos efeitos na nossa vida.

A educação ocorrerá em todos os momentos do dia, não somente dentro da escola. A realidade ampliada e virtual permitirá estudar história e geografia visitando épocas passadas e lugares interessantes.

Esse novo mundo precisará de pessoas com capacidade de entender os fatos e correlaciona-los com as experiências anteriores gerando novos conhecimentos. Precisara de profissionais empreendedores e não simplesmente empregados. Capacidade de relacionamento interpessoal, domínio de duas ou mais línguas e comprometimento com a sustentabilidade do planeta e da sociedade serão condições mínimas para viver nesse novo mundo. Se tirarmos os atuais conteúdos enciclopédicos, ensinados nas escolas, sobrará muito tempo da escola para desenvolver essa habilidades e competências.

Um fator crítico para o sucesso da MP 756/2016, quanto a redução de disciplinas, está na resistência das editoras e professores. Educação, há muito tempo, se tornou um negócio prospero para grandes grupos econômicos. Não há nada de errado em ser um negócio, mas desde que esteja formando cidadãos conscientes e aptos para serem produtivos e agentes de mudanças.

O ensino médio tem a missão, não declarada explicitamente, de preparar para o vestibular, e principalmente para vestibular de faculdades públicas. Apesar do discurso, uma parte muito grande do esforço das escolas está em mostrar que seus ex-alunos entraram nas melhores faculdades. As universidades, por sua vez, querem selecionar para seus quadros os alunos melhores preparados e, para isso, montam vestibulares complexos. que medem apenas memorização de fatos e fórmulas. Com isso elas selecionam aqueles jovens que puderam dedicar um maior número de horas memorizando conteúdo e treinando para resolver questões de todos os tipos. Naturalmente esses jovens são oriundos de classes sociais que podem arcar com esse investimento de tempo e de esforço. Os vestibulares atuais, incluindo o ENEM, são tão complexos que muito provavelmente os reitores das universidades não passariam se prestassem os exames para sua área de atuação.

Outra resistência a ser quebrada para a implantação da MP756/2016 está nos livros textos. Os professores, seja por falta de tempo ou por falta de formação adequada, seguem rigorosamente o livro texto adotado para suas disciplinas. Esses livros, por sua vez, são escritos visando uma especialização e aprofundamento imaginado pelos autores, que raramente são professores atuante ne ensino. Assim cria-se um ciclo vicioso onde o autor escreve obras com alta especialização e pouca interdisciplinaridade. O professor, por sua vez, ao adotar o livro, segue fielmente o seu conteúdo aprofundando ainda mais o isolacionismo dos conteúdos.  Quantos livros textos de matemáticas usam exemplos que envolvem questões sociais (reforma agrária, crescimento da população, escassez de alimentos, coeficiente partidário, etc.)? Quantos livros de língua portuguesa trazem a história e a geografia nos seus textos? Quantos livros de química usam a poluição, ou a economia do petróleo, para exemplificar o uso da química no dia-a-dia?

Adotar uma nova estratégia para o ensino médio passa, obrigatoriamente, pela substituição os livros atuais (com a esperada pressão contrária das editoras) e pela capacitação dos professores para entenderem outras matérias além da sua área de formação. Se a educação forma para a vida, devemos então forma para a vida real e não a vida idealizada nos livros textos.

[1] Paulo Rogério Foina é físico, doutor em computação, professor e coordenador de cursos do UniCEUB, consultor do Instituto de Pesquisas Eldorado e diretor executivo do Instituto illuminante de inovação.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *